Mano D Regenerado: do Paranoá para a cultura Hip-Hop, uma história de resistência, fé e transformação
Nesta matéria, você vai conhecer a trajetória de um artista que teve seus primeiros contatos com a cultura Hip-Hop ainda nos anos 80, acompanhou o crescimento do rap em Brasília e, desde 2005, transforma suas vivências em música, reflexão e mensagem para a comunidade.
Criado no Paranoá, no Distrito Federal, o rapper Mano D Regenerado carrega na música a história de quem viveu de perto a cultura de rua e encontrou na arte uma ferramenta de transformação.
Seu primeiro contato com o Hip-Hop aconteceu ainda no final dos anos 1980, quando, ainda criança, acompanhava as rodas de break realizadas na antiga Vila Paranoá. Na época, ele ainda não compreendia totalmente o movimento, mas já se identificava com aquela manifestação cultural.

Foi nesse período que conheceu artistas internacionais como Whodini, Kurtis Blow e Eric B. & Rakim, referências que, segundo ele, eram chamadas simplesmente de “o peso” naquela época.
Durante os anos 1990, o rap passou a ocupar ainda mais espaço em sua vida. Vieram as influências de Thaíde & DJ Hum, NDEE Naldinho e Racionais MC’s, além da vivência nos bailes, nas rodas de break e na cultura de rua.


A trajetória artística começou oficialmente em 2005. Curiosamente, foi durante sua aproximação com a igreja que ele começou a cantar rap. A partir daí, encontrou na música uma forma de contar histórias, compartilhar experiências e representar a comunidade onde nasceu e cresceu.


Para Mano D Regenerado, o rap vai muito além da música. Ele acredita que o rapper também exerce o papel de cronista, registrando o tempo, relatando experiências e dando voz às realidades vividas nas periferias.
Seu trabalho busca levar mensagens de informação, prevenção, alerta e reflexão, sem a intenção de apresentar verdades absolutas.
Entre suas principais referências estão artistas que ajudaram a construir o Hip-Hop nacional. Na cena de Brasília, grupos como Cirurgia Moral, Álibi e Código Penal também tiveram papel importante em sua formação.

Mas, segundo o próprio artista, sua principal inspiração continua sendo a vida. As experiências, os desafios e os acontecimentos que marcaram sua trajetória se transformaram em matéria-prima para suas músicas.
Entre os momentos mais importantes de sua carreira, ele destaca as parcerias com Douglas, do Realidade Cruel, e com o saudoso Rivas (Kabala), do Álibi. Também guarda como conquistas as apresentações realizadas em presídios, clínicas de recuperação, eventos comunitários e grandes palcos ao lado de nomes importantes do rap nacional.

Para ele, uma das maiores vitórias é simplesmente continuar de pé.
Um homem que poderia ter se tornado mais uma estatística nos anos 1990 hoje segue compondo, cantando e utilizando a própria história para inspirar outras pessoas.
A trajetória não foi fácil. Um dos principais desafios foi levar o rap para dentro da igreja, especialmente no início dos anos 2000, quando ainda existia muito preconceito contra o gênero musical e também contra o próprio passado do artista.

Mano D Regenerado afirma que a transformação de sua vida foi proporcionada por Deus, mas que a arte também teve um papel importante nesse processo.
Para ele, o rap foi instrumento de resgate e continua podendo alcançar outras pessoas.
A valorização do artista local também aparece entre suas principais preocupações. Segundo Mano D Regenerado, muitos artistas do Paranoá, Itapoã e região ainda precisam lutar diariamente por espaço, reconhecimento e oportunidade.
Na visão dele, o Hip-Hop continua sendo uma das manifestações culturais mais fortes das comunidades, mas ainda é tratado muitas vezes como segunda opção em grandes eventos.

Ao falar sobre a produção cultural da região, Mano D Regenerado destaca a existência de muitos artistas talentosos, mas aponta a falta de valorização como um dos principais problemas.
Para ele, é necessário abrir mais espaço para os artistas locais participarem dos eventos e serem reconhecidos como profissionais da cultura.
Também defende que as novas gerações conheçam e respeitem quem ajudou a construir a história cultural da região.
“Cultura também é memória”, resume o artista.
Mano D Regenerado acredita ainda que a arte tem um papel fundamental na comunidade porque ajuda a preservar histórias, informar, prevenir, aproximar pessoas e dar voz a quem muitas vezes não encontra espaço para falar.

Ao longo dos anos, a persistência trouxe reconhecimento.
Mano D Regenerado foi homenageado pelo Aviva Hip Hop, evento de destaque da cultura Hip-Hop em Brasília, organizado por Stein Anistia. No aniversário de dez anos do projeto, esteve entre os artistas homenageados.
Também recebeu reconhecimento da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, por meio do prêmio BSB 60, além de uma homenagem da Casa do Hip Hop de Ceilândia.


Na carreira, também dividiu palcos com nomes como Dexter e MV Bill, além de artistas importantes da cena brasiliense, como Cirurgia Moral e Voz Sem Medo.


A caminhada continua com novos projetos.
Entre eles está o Rimas que Ensinam, Versos que Transformam, desenvolvido em escolas públicas com o objetivo de levar a cultura Hip-Hop, reflexão e cidadania para crianças e adolescentes.

O artista também participa do quadro Feliz Quem Tem História pra Contar, em parceria com o Paranoá Reels, compartilhando memórias e histórias da comunidade.
Outro projeto é o Direto das Ruas do Paranoá, voltado para o registro da memória da cidade por meio de fotografias, relatos e personagens que fazem parte da história da região.
Na música, Mano D Regenerado segue produzindo. Entre os trabalhos recentes estão “Roda Gigante”, “O Pulso Ainda Pulsa” e “Fio Desencapado”. Novos lançamentos também estão sendo preparados, entre eles “Vencedores Vencedores”.


Mesmo depois de tantos anos de caminhada, o artista afirma que ainda possui grandes sonhos.
O principal deles é ver uma sociedade com menos divisão e mais humanidade, onde as pessoas sejam reconhecidas como iguais, independentemente de cor, condição financeira, religião ou posição social.
Para quem deseja seguir uma carreira na arte, Mano D deixa uma mensagem baseada na própria experiência: é preciso ter disposição, perseverança e verdade.
O reconhecimento pode demorar, mas, segundo ele, quando a arte é feita com sinceridade, sempre consegue alcançar alguém.
“Tudo o que vivi, de alguma forma, ajudou a construir o Mano D Regenerado. Por isso, levo gratidão por todos que passaram pela minha caminhada.”


A história de Mano D Regenerado é, acima de tudo, uma história de permanência. De alguém que atravessou diferentes fases da vida, encontrou na fé e na arte caminhos de transformação e continua usando o rap para contar a história da quebrada que ajudou a formar quem ele é hoje.
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